(Quase) 1 ano depois, posso falar.

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Pareço uma Velha do Restelo quando me meto a praguejar, e ultimamente tem acontecido muito. 

A este ponto, é demasiado óbvio que não andei bem e ainda ando a recuperar e a reconstruir. É que não são só aquelas mudanças que não matam, mas moem, e que acontecem a toda a gente. Foi mais. 

Cada pessoa lida com os eventos de vida de diferentes formas. Eu costumo ser uma pessoa optimista. Há um ano, fui mesmo abaixo. A parte boa é que, apesar de tudo, tenho à minha volta pessoas que me amam e que se preocupam genuinamente com o meu bem-estar. Não consigo, de todo, por-me no lugar de quem está sozinho e passa por coisas assim ou piores. São fortes, vocês! 

É a única vez que falo deste assunto no blog, para o enterrar de uma vez por todas. A saúde terá lugar de destaque, mas este episódio jamais, Salomé!

Afinal, o que correu assim tão mal?

Há que começar por salientar que, a bem da verdade, não me falta nada. Tenho família, tecto, comida, conforto e alguns luxos. Tomara muita gente! Para a geração dos que têm menos de 30 anos, como eu, até já fiz algumas conquistas. Mas nem tudo é perfeito, não se iludam!

Quem segue o blog há algum tempo, sabe que estudei Enfermagem mas não quis ser enfermeira. Fui mãe, entretanto, e embora conseguisse tirar uns trocos daqui e dali (poder cuidar da Teresa estava acima de tudo), estava na hora de procurar algo para fazer. 

A Teresa já tinha feito 1 ano há algum tempo, teve vaga na creche, e a procura de emprego revelou-se mais complicada do que alguma vez imaginara (Tem uma filha pequena? É casada? É licenciada, mas então e a sua experiência de trabalho?).

Aproveitei para fazer formação dentro daquilo em que realmente tinha experiência e que me deixava feliz – ainda foram mais de 100h no CaF, e não pretendo ficar por aqui. Em Abril de 2018, lá surgiu uma oportunidade que me permitiria exercer, em parte, aquilo de que tanto gostava.

Alguns de vós devem-se ter apercebido que comecei a trabalhar numa empresa como gestora comercial. Falamos de uma empresa com décadas de existência, de boas referências na sua área de actuação. A oportunidade surgiu via Mulheres à Obra. E é importante salientar: há órgãos públicos que continuam a compactuar com as más práticas da empresa, nomeadamente o IEFP, que continua a atirar pessoas para lá (e que, ao fim de quase um mês, “não servem” – vi acontecer várias vezes).

Primeiro, tratava-se de um part-time. Rapidamente se transformou num full-time que ia muito para lá do acordo inicial, com promessa de contrato de trabalho. Entrava antes das 9h, cheguei a sair às 21h várias vezes. Entre um chefe machista que gritava com toda a gente e dizia mal dos seus funcionários e clientes na sua ausência e a total desorganização na estrutura empresarial, escusado será dizer que não só não tive contrato de trabalho nenhum, como ao fim de dois meses não recebi um cêntimo sequer.

Senti-me tão estúpida por ir aceitando toda a situação! Pediam-me para ter paciência, que haveriam de ter o aval do IEFP para um estágio profissional (what?) que não se saberia quando ou se seria aprovado e que nem sequer teria retroactivos. Durante dois meses, paguei para ir trabalhar. Abdiquei dos meus projectos, que me davam retorno financeiro, para isto. Lamentei pelas pessoas que conheci por lá e de quem gostava, mas pus termo a esta situação.

Por esta altura, já não tinha saúde nem vontade para nada útil. 

Vim embora a sentir-me miserável. Não consegui abstrair-me da situação nem relativizar o que se estava a passar e comecei a ter ataques de pânico. É a pior sensação. Enquanto aguentei, mantive alguma ocupação (ainda tentei aproveitar mais módulos de formação) e também tive sempre a responsabilidade de ser mãe para me lembrar que, mesmo que o resto falhasse, forçosamente, tinha utilidade nesse campo.

Estava inscrita na escola de condução – confesso que, com a Teresa, dava jeito conduzir!, e essa parte já vocês sabem: um dia, bati com o nariz na porta porque tinham fechado de vez, sem aviso prévio. Também não era uma escola da candonga – foi a escola onde a maior parte dos meus amigos foram tirando a carta.

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Escusado será dizer que os meus dias passaram a servir para chorar encolhida na cama, a pensar que ia morrer, com dores no corpo todo, um apito na cabeça e a sensação de que estava a ter um enfarte. Foram os piores dias da minha vida. Levantava-me a muito custo, por obrigação, sentia dor só por existir. Eu, que sempre fui bastante extrovertida e sociável, passei a ter fobia de sair à rua e enfrentar multidões. Sentia-me um fracasso.

Isto só começou a mudar quando fui empurrada para o médico e fui ajudada.

Foi preciso ter paciência, medicação e força de vontade. Ainda não estou a 100%. Mas estou bem! Os erros e as fases más calham-nos a todos; a forma como lidamos com eles determina o nosso amanhã. E não temos de estar sozinhos. Falar é bom. Pedir ajuda é bom. Já vão existindo alguns recursos e felizmente começamos a acordar para a importância da saúde mental.

Não temos de ter vergonha das nossas angústias, do nosso corpo e da nossa saúde. O cérebro também pode ficar doente. Se tiverem uma doença noutro órgão qualquer, fiam-se no “isto passa, não preciso de tomar nada”? Pois.

Não nos importamos de tomar contraceptivos décadas a fio, todos os dias, sem falhar. Tomamos suplementos, por vezes desnecessários. Aceitamos que um diabético, hipertenso ou seja que doente for tome medicação para toda a vida. Quando estamos doentes do cérebro, temos vergonha e temos medo de ficar viciados. Que estupidez é esta?

O meu 2018 foi um lixo porque não tive o discernimento, como tanta gente, de reconhecer que não estava bem e que precisava de ajuda.

E sabem o que é mais engraçado? Nestas alturas descobrimos que não somos os únicos a quem as mágoas se transformaram em doença. Não deixem que os outros ponham termo à vossa saúde. Se vocês não estiverem bem, quem estiver à vossa volta e depender de vós também não vai estar.

E eu sei que é muito engraçado falar disto sendo que (felizmente) tive suporte, mas mentalizem-se de que nenhum trabalho merdoso ou escravidão compensa o vosso desgaste. Cuidem de vós!



2 thoughts on “(Quase) 1 ano depois, posso falar.”

  • Estimada Guida, de facto apercebi me de que algo não estava a ir pelo melhor caminho no blog mas admiro muito a tua coragem de partilhares algo que é ainda um pouco tabu. Eu comecei com ataques de pânico no primeiro ano de faculdade e neste momento estando infeliz profissionalmente creio que seja tempo de terminar o meu curso. Hei de fazer um “testemunho” acerca da minha experiência pessoal com o pânico e a ansiedade mas desde já os meus parabéns pela tua partilha sincera pois por vezes este fenómeno é ainda visto como “maluqueira” ou “mania” ou até “mariquice” mas de facto é uma situação delicada e complexa.

  • Esta partilha provavelmente não foi fácil para ti, mas de certeza que vais ajudar outras pessoas com ela. Esperamos que já tenhas encontrado um trabalho que te valorize, que estejas feliz e que sejas feliz. Ah! E já agora que arranjes tempo para nos vir visitar. Beijinhos

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